domingo, 8 de maio de 2016

Nós. Confinados entre engrenagens. Eu, nu, exposto, despido diante de teus ouvidos. Ali. Assim. Como sou. Tu, a mirar as faixas, balbuciando um “também”. Desdenho da minha nudez. De repente, vês-me e, comigo, riste.  As automotoras, sob o meu controle. As cardíacas, sob os teus. Será que, dentro destas engrenagens, a nossa engrena?

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Ele é Prosa.
Eu Poesia.
Ele narra.
Eu proclamo.
Ele é rígido.
Eu F
       l
        u
           í
            d
              o.
Nessa profusão linguística,
ele chamou e eu
                                                                                                         fluí.                

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

A cada gole, um trago.
A cada silêncio, dois tragos.
Se ele esfria, três tragos.
Se ele exita, não conto, só trago.
E, nessa de tragos, trago-me entre teus atos.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

É estranho, Berenice. O mundo é estranho. Sou estranho. E meu amor por ti também. Pelo amor de Deus, Berenice, como eu poderia amar a ti sem que fosse estranho? É estranho, Berenice. Tão estranho, porque eu vivo fazendo burrada, porque eu vivo nessa eterna reforma, porque eu nunca estou satisfeito com o tamanho do cômodo e sempre quero maior. Não, Berenice. A mobília não está velha, ela é um clássico e só precisei tirá-la do cômodo para mantê-la intacta. Intacta sim! Porque estou demolindo aquelas velhas paredes. Quero algo amplo agora, cansei daqueles quartos escuros, a partir de hoje escuridão só nos cantos, não no meio. Forrar o sofá? Fingir que o velho é novo? Estás louca Berenice? Bebeu? É, você não bebe, o bêbado aqui sou eu. Não sei se me ofendo mais contigo chamando meu sofá de velho ou com tua ideia descabida de forrá-lo de novo. Eu gosto dessas manchas de café, Berenice, e principalmente daquelas de vinho. Já te disse que meus moveis são clássicos, vamos mudar de assunto? Eu? Falar sobre mim? Ah Berê, você sabe o que há para saber. Eu continuo no meu projeto academia- alternando um mês sim e um mês não-. Não ria, Berenice. Pare! No dia em que eu tiver no corpo dos meus sonhos eu que vou rir de sua cara de bocó. A vida? A vida como sempre vive envergando e o maldito ponteiro dos segundos a sugar minha juventude, mas nos últimos tempos as coisas melhoraram, sabe? Lembra aquelas nuvens que bloqueavam o sol? Estão dissipando, acredita? Você assistiu a aquele filme? Ouviu a aquela música? E ai? Gostou? Do filme aposto que sim, já da música... Confesso que perdôo se tiveres achado fossa de mais. Sei que dos dois aquele que gosta de cravar punhais dentro de si, sou eu. No último mês, eu editei tantas fotos nossas, ficava bêbado e pensava em ligar, mas sabe Berê? Eu não podia. Queria que, quando te reencontrasse, o cômodo novo te pegasse de surpresa. A reforma? Não sei como vai terminar, mas tenho esperança nela. Tô apostando alto dessa vez, me sinto um sonhador de novo, acredita? Até dos meus sonhos eu voltei a lembrar. Ah, Berê, vamos tomar um café qualquer dia? É difícil sem estar perto de ti. Eu também te amo, até terça.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

"Navegar é preciso, viver não é preciso."

Vivo sem direção. Estou a tornar-me tudo, exceto eu. Não suporto mais essa tempestade, então sofro, apodreço e morro aos poucos. Meu coração dói. Minha alma chora. Meu corpo enfraquece. E certa frase sartriana continua a martelar em minha cabeça: O mundo é horrível.
Ando tão calejado, tão machucado, tão maltratado que vivo a deriva de mim. Queria tanto não navegar sob a face dessa bússola moral apontando para um norte- que não é o meu-, ser um espírito livre, encontrar meu próprio farol, desbravar meus oceanos e transformar a palma da minha mão em mapa. Mas parece que a vida, simplesmente, esvai-se pelos meus dedos e sinto trevas, sinto a dor, sinto a angustia, sinto a insegurança e sinto-me- como diria Drummond- gauche.
Andam, há tanto tempo, ao meu lado, trevas, que já as tenho como uma caríssima amiga. Há dias que tenho vontade de me afogar em escuridão e trancar-me num claustro cercado por minhas lágrimas e minha dor e minha angústia. Ser ilha, mesmo que, por breves instantes.
Amo- ou melhor, porém amo-. E o amor me impede de desistir, faz-me aguar reaprender a navegar e seguir meus instintos para, talvez, não mais precisar daquela bússola e guiar-me apenas pelas estrelas, pelos ventos e pelas marés do meu eu. Assim, estar pronto para, quem sabe um dia, levar uma vida plenamente imprecisa.
   

Os Argonautas, por Caetano Veloso.

sábado, 2 de novembro de 2013

A morte do Eu.

Sinto-me morrer. Não me leve a mal. Apesar de metafórica, posso lhe garantir que, a minha morte, é bastante real.
Preciso iniciar um novo capítulo. Nele não quero frangalhos do que outrora escrevi. Ele será um divisor de águas. Todavia, para tal feito, necessito pôr todos os devidos pontos finais nessa odisseia. Somente então, ousarei tocar nas páginas em branco. Quando nessas alvas maravilhas tocar, me recuso utilizar meandros para evitar partidas.
Planejo uma reviravolta nessa saga. Prevejo muitos momentos alá Clarice Lispector Apuro meus sentidos para permitir o meu eu partir. Pois então, ouso matar-me. E, nasço em mim, do pó de quem outrora fui.
Nesse exato momento, nasce uma nova estória dentro daquela velha. Os ventos mudaram o rumo. Sinto uma nova correnteza. Morri para recomeçar um ciclo e renasço para matar essa nova pessoa.

Pois há momentos em que a pessoa está precisando de uma pequena mortezinha e sem nem ao menos saber. Quanto a mim, substituo o ato da morte por um símbolo. [...] Eu, que simbolicamente morro várias vezes só para experimentar a ressurreição.”
– Clarice Lispector, A hora da estrela.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O Sonho.

Eles mandaram o pobre ufano, seguir os seus sonhos, porém essa frase veio carregada de expectativas ocultas e implícitas, que apesar de parecer carregar o ideal libertário, tornava-a o objeto do mais profundo medo daquele pobre garoto utópico. Era a prova de que todas as suas suspeitas estavam corretas, era a prova de que o Sistema era real.
Ele percebeu que para o Sistema, seguir os sonhos significava seguir os anseios de outras pessoas, significava aprisionar os seus numa garrafa e despejá-lo onde tudo o que é insignificante para a sociedade ficava amontoado e foi isso que o tirano sistema fez ao ver o enorme sonho de liberdade que aquele garoto ufano carregava em seu intimo.
Pobre Sistema, mal sabia que aquele sonhador mantinha dentro dele resíduos do que um dia foi um grande sonho e pior não tinha noção que ele o alimentava, reforçava-o e reconstruía aquele que viria a ser o sonho de liberdade de toda uma nação.
Para o Sistema aquele era mais um alienado, que seguiria fielmente as suas tiranas inquisições, e por enquanto ele as segue, ele as cumpre, ele finge não ver tantas atrocidades, mas ele luta para que a falsa liberdade seja derrotada, e para que a enorme venda que cobre os olhos de toda uma nação se torne pó e que assim os sonhos, que outrora foram engarrafados, possam ser resgatados.
***

 Imagine, por John Lennon.
Letra de John Lennon.