domingo, 8 de fevereiro de 2015

É estranho, Berenice. O mundo é estranho. Sou estranho. E meu amor por ti também. Pelo amor de Deus, Berenice, como eu poderia amar a ti sem que fosse estranho? É estranho, Berenice. Tão estranho, porque eu vivo fazendo burrada, porque eu vivo nessa eterna reforma, porque eu nunca estou satisfeito com o tamanho do cômodo e sempre quero maior. Não, Berenice. A mobília não está velha, ela é um clássico e só precisei tirá-la do cômodo para mantê-la intacta. Intacta sim! Porque estou demolindo aquelas velhas paredes. Quero algo amplo agora, cansei daqueles quartos escuros, a partir de hoje escuridão só nos cantos, não no meio. Forrar o sofá? Fingir que o velho é novo? Estás louca Berenice? Bebeu? É, você não bebe, o bêbado aqui sou eu. Não sei se me ofendo mais contigo chamando meu sofá de velho ou com tua ideia descabida de forrá-lo de novo. Eu gosto dessas manchas de café, Berenice, e principalmente daquelas de vinho. Já te disse que meus moveis são clássicos, vamos mudar de assunto? Eu? Falar sobre mim? Ah Berê, você sabe o que há para saber. Eu continuo no meu projeto academia- alternando um mês sim e um mês não-. Não ria, Berenice. Pare! No dia em que eu tiver no corpo dos meus sonhos eu que vou rir de sua cara de bocó. A vida? A vida como sempre vive envergando e o maldito ponteiro dos segundos a sugar minha juventude, mas nos últimos tempos as coisas melhoraram, sabe? Lembra aquelas nuvens que bloqueavam o sol? Estão dissipando, acredita? Você assistiu a aquele filme? Ouviu a aquela música? E ai? Gostou? Do filme aposto que sim, já da música... Confesso que perdôo se tiveres achado fossa de mais. Sei que dos dois aquele que gosta de cravar punhais dentro de si, sou eu. No último mês, eu editei tantas fotos nossas, ficava bêbado e pensava em ligar, mas sabe Berê? Eu não podia. Queria que, quando te reencontrasse, o cômodo novo te pegasse de surpresa. A reforma? Não sei como vai terminar, mas tenho esperança nela. Tô apostando alto dessa vez, me sinto um sonhador de novo, acredita? Até dos meus sonhos eu voltei a lembrar. Ah, Berê, vamos tomar um café qualquer dia? É difícil sem estar perto de ti. Eu também te amo, até terça.

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