quarta-feira, 9 de julho de 2014

"Navegar é preciso, viver não é preciso."

Vivo sem direção. Estou a tornar-me tudo, exceto eu. Não suporto mais essa tempestade, então sofro, apodreço e morro aos poucos. Meu coração dói. Minha alma chora. Meu corpo enfraquece. E certa frase sartriana continua a martelar em minha cabeça: O mundo é horrível.
Ando tão calejado, tão machucado, tão maltratado que vivo a deriva de mim. Queria tanto não navegar sob a face dessa bússola moral apontando para um norte- que não é o meu-, ser um espírito livre, encontrar meu próprio farol, desbravar meus oceanos e transformar a palma da minha mão em mapa. Mas parece que a vida, simplesmente, esvai-se pelos meus dedos e sinto trevas, sinto a dor, sinto a angustia, sinto a insegurança e sinto-me- como diria Drummond- gauche.
Andam, há tanto tempo, ao meu lado, trevas, que já as tenho como uma caríssima amiga. Há dias que tenho vontade de me afogar em escuridão e trancar-me num claustro cercado por minhas lágrimas e minha dor e minha angústia. Ser ilha, mesmo que, por breves instantes.
Amo- ou melhor, porém amo-. E o amor me impede de desistir, faz-me aguar reaprender a navegar e seguir meus instintos para, talvez, não mais precisar daquela bússola e guiar-me apenas pelas estrelas, pelos ventos e pelas marés do meu eu. Assim, estar pronto para, quem sabe um dia, levar uma vida plenamente imprecisa.
   

Os Argonautas, por Caetano Veloso.

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