Desde cedo, resolvi que queria que a minha vida fosse uma
obra de arte.
Assim que pude, comecei a trabalhar na tal peça que seria
a obra da minha vida. A principio comecei a criar os traços a lápis, pois a
qualquer momento poderia apagá-los e recomeçar.
O tempo foi passando e as adversidades foram surgindo,
devo confessar que sempre tive medo do futuro e do inseguro e, assim que as
coisas apertaram, apaguei todos os meus rabiscos e cobri a minha tela de preto.
Passei por muito tempo no conforto que somente a escuridão nos dá, mas a minha
alma sentia falta de luz e aos poucos vi necessário jogar tons de branco, em
alguns poucos e escassos lugares, para tentar criar em meu âmago a falsa ilusão
que tudo estava bem. Todavia, mal sabia
eu que a nossa alma sempre água por mais luz, logo as trevas iam se tornando
cada vez mais desconfortáveis e eu ia salpicando ainda mais a minha tela com o branco.
O meu mundo havia se tornado “Chiaroscuro”, repleto de
luz e trevas, que se alternavam sem se dominarem e ao mesmo tempo sem
co-existirem pacificamente. Ainda assim, a minha alma ainda gritava por mais,
ela pedia por mais vida.
Hoje eu ouso pintar a minha tela com cores pastel, apesar
de ainda haver o branco e o negro se contrapondo, mas eu tento da forma mais
discreta possível pôr cor, pôr um pouco mais de vida. Anseio pelo dia em que viverei como numa
linda obra renascentista, perfeita nos padrões greco-romanos, cheia de cores,
formas e ângulos.
Pode ser que no futuro eu tenha transformado a minha tela
em algo com projeções cubistas, futuristas, ou expressionistas, mas que essas
transformações ocorram porque eu quero, não por medo, por fraqueza, por dor,
por sofrimento, mas porque eu mudei para mim e não para os outros. Contudo, por
agora, eu preciso viver na renascença, preciso desafiar-me a quebrar paradigmas
de dualidade medievais que ainda atormentam-me, preciso viver um grande amor,
mesmo que fatal, como o de Romeo e Julieta.
No fim da vida quero olhar para traz ver beleza, ver que
durante a minha pequena e insignificante existência, eu vivi eternamente,
exatamente como uma obra-prima.
***
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